Apesar de ser o líder em volume total de vendas de eletrificados — além de ter recebido a planta da maior fábrica da gigante chinesa BYD fora da Ásia —, o Brasil ainda não é o líder sul-americano na adoção dos veículos.
Essa posição é do Uruguai, cerca de 48 vezes menor do que o Brasil em extensão territorial. Segundo dados da Organização Latino-Americana de Energia (Olade), até dezembro de 2024, o país tinha 5.382 veículos elétricos leves por milhão de habitantes, bem à frente de seus vizinhos continentais.
Já em 2025, 20% das vendas de veículos automotivos no Uruguai eram de eletrificados, número que cresceu 10 pontos percentuais e passou a 30% em janeiro de 2026, segundo a Associação do Comércio Automotor do Uruguai (Acau).
O país também está à frente do Brasil em outro campo promissor para ambos, especialmente se comparados ao resto do mundo: uma matriz energética renovável. Hoje, entre 95% e 99% da eletricidade uruguaia é gerada por fontes renováveis, de acordo com informações do governo uruguaio.
A energia eólica responde por até 40% de toda a geração; a hídrica, por até 35%; e o restante é complementado pela energia fotovoltaica (solar). No caso do Brasil, até 47% da energia é proveniente de fontes renováveis, e o país já alcança o quinto lugar do mundo em produção de energia eólica, segundo dados de 2025 do Global Wind Report 2025 do GWEC.
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As políticas de transição energética, descarbonização e transição verde se aprofundaram desde o começo da década passada no Uruguai, e envolveram a redução de combustíveis importados, modelo que, de acordo com pesquisas do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foi essencial para possibilitar a liderança uruguaia também no setor de veículos elétricos.
Além da base energética, a expansão dos elétricos no Uruguai está diretamente associada a amplos incentivos econômicos, como o regime de tributação diferenciada na importação e circulação dos modelos.
Enquanto os veículos à combustão recebem alíquotas maiores, que podem chegar a até 23%, os eletrificados são beneficiados com tarifa de importação praticamente zerada quando vêm de fora do Mercosul.
O imposto interno (IMESI), principal tributo sobre o setor automotivo, reduz as alíquotas para cerca de 5% a 10% do valor do automóvel (a depender do tipo), uma diferença que, em relação aos carros à combustão, pode ser até 10 vezes menor.
A estratégia do Brasil é um pouco diferente: até julho de 2026, a tributação dos eletrificados deve aumentar de maneira progressiva no país, e o imposto de importação vai chegar a 35% (a mesma alíquota adotada para os veículos movidos a combustão).
A ideia é “estimular a produção nacional” do setor e depender menos das importações de veículos prontos. Montadoras internacionais que já estabeleceram produção no Brasil, como as chinesas BYD e GWM, agora tentam minimizar o aumento de impostos com a nacionalização.
Outros incentivos do Uruguai à expansão dos eletrificados são as reduções nas taxas de registro de automóveis e o estímulo do governo para que frotas de táxis e outros serviços corporativos sejam compostas por elétricos.
Nota-se também o alto preço da gasolina, um dos maiores da América Latina (de cerca de US$ 2 por litro, ou US$ 7,4 por galão), que torna mais fácil a escolha pelos modelos dependentes de energia.
A infraestrutura urbana do país também mudou para se adaptar ao novo panorama de carros elétricos. O território já contava com mais de 300 pontos públicos de recarga até 2024, a maior parte deles pertencente à estatal elétrica UTE, que opera a rede nacional integrada.
O plano da UTE, daqui em diante, é instalar pontos de recarga a cada 50 km nas rodovias nacionais, mas isso é relativamente fácil para um país que mede menos de 600 km de ponta a ponta.
2026-02-24T15:30:37Z