Parece chover no molhado dizer que os carros chineses evoluíram, mas até para quem está acostumado a dirigir todo tipo de carro elétrico, alguns ainda conseguem surpreender. E o Zeekr 7X é um belo exemplo do que esses caras estão conseguindo fazer.
Ele chega ao Brasil como o terceiro modelo da marca, posicionando-se exatamente no centro da estratégia da Zeekr por aqui. Depois do compacto X e do 001, mais exclusivo, o 7X é o carro que dialoga com o segmento de maior volume dentro do universo premium elétrico: SUVs médios-grandes, familiares, tecnológicos e rápidos, muito rápidos.
A analogia que melhor o define talvez seja esta: é como se alguém tivesse pegado a receita de um SUV elétrico alemão de mais de R$ 700 mil, adicionado ainda mais potência e decidido vender por menos de R$ 450 mil. Tudo isso sem perder refinamento.
Projetado e desenhado na Europa, o 7X mostra um estágio mais maduro de uma marca que é nova dentro do grupo Geely. A Zeekr tem menos de cinco anos e já mostra a que veio, e não apenas pelo 7X, mas pelo que já vimos no modelo de entrada X e no topo de linha 001, este um projeto anterior ao 7X.
O SUV é construído sobre a plataforma SEA (Sustainable Experience Architecture), aqui na configuração SEA2, uma arquitetura dedicada a elétricos, mas com sistema elétrico de 800V. Isso não é só detalhe de ficha técnica: significa menor aquecimento, maior eficiência energética e possibilidade de recargas extremamente rápidas, como veremos mais adiante.
Com 4,78 m de comprimento, 1,93 m de largura e entre-eixos generosos de 2,90 m, o 7X tem proporções típicas de SUVs médios e fica próximo de BMW iX3 e Mercedes EQE SUV. O peso passa de 2,5 toneladas, mas a distribuição de massa baixa, graças ao pacote de baterias no assoalho, ajuda no comportamento dinâmico.
E aqui a concepção já nasceu global. Não é um produto “adaptado” para exportação. Isso fica claro na calibração de suspensão, no nível de acabamento e na preocupação com segurança, reforçada pelas cinco estrelas no Euro NCAP, que já está virando um padrão para essas novas marcas chinesas.
Longe da mesmice, o design é um dos trunfos do SUV. Premiado internacionalmente, o 7X combina proporções equilibradas com linhas limpas e detalhes modernos, como maçanetas embutidas, faróis full LED matrix e teto panorâmico com cobertura interna elétrica. O visual transmite sofisticação sem pesar a mão.
Ele não tenta ser excessivamente futurista, nem agressivo demais. A frente é limpa, com assinatura luminosa bem definida. De perfil, o balanço curto e a linha de cintura alta reforçam a robustez. Na traseira, a barra horizontal de LEDs amplia visualmente o carro.
Por dentro, o acabamento chama a atenção: qualidade de carro premium, montagem precisa, texturas agradáveis ao toque, mas sempre mantendo a descrição, sem ser ‘over’ ou parecer carregado. Aqui, há toques de modernidade como as saídas de ar embutidas no painel, head-up display com realidade aumentada, bancos com aquecimento, ventilação e massagem. O assistente de estacionamento é o ponto alto: funciona com precisão e não vacila ao entrar em vagas mais apertadas, mas precisa se aproximar bem da vaga para a medição e poder ativar a manobra automática.
O couro Nappa, os encaixes bem resolvidos e a ausência de ruídos parasitas reforçam a sensação de produto de categoria superior. O silêncio a bordo, nível de isolamento acústico e de vibrações também merece destaque, bem como as comodidades extras desse segmento, como saídas de ar nas colunas para os passageiros do banco traseiro e até uma câmera para os ocupantes traseiros.
A central multimídia de 16” concentra praticamente todas as funções, acompanhada de painel digital de 13” e HUD com realidade aumentada de 36,2”. A usabilidade de forma geral é boa, mas nem o 7X escapa do mal dos elétricos modernos: aqui também temos o problema recorrente dos novos chineses (e até alguns ocidentais): funções triviais como ajuste elétrico do volante e retrovisores só por menus na tela central. É um exagero e merece ser revisto, como já começamos a ver em alguns lançamentos mais recentes.
Em espaço, ele faz jus ao segmento, com sobras. Há conforto real para cinco ocupantes adultos, enquanto o porta-malas não depõe contra e passa dos 500 litros, além de um pequeno frunk dianteiro de 42 litros.
Há SUVs elétricos muito potentes que impressionam na ficha técnica, mas acabam cansando no dia a dia. O Zeekr 7X não entra nesse grupo. Logo nas primeiras aceleradas ele já mostra que não é bruto, e sim controlado. Gosto desse perfil, potente, mas que não sai descontrolado. É claro que tem uma bela dose de potência ali pra você usar, mas ela não fica o tempo todo tentando se impor. O SUV parece calibrado para ser utilizável no dia a dia, não apenas para exibir números.
E quando você resolve explorar tudo o que ele pode entregar, os números aparecem. São 646 cv e 710 Nm combinados, extraídos de dois motores elétricos, um em cada eixo, garantindo tração integral permanente. O resultado é um 0 a 100 km/h em 3,8 segundos em nossos testes, desempenho que coloca o 7X em território de esportivos, mesmo sendo um SUV de 4,78 metros e mais de 2,5 toneladas. A velocidade máxima é limitada a 200 km/h, mas é na faixa intermediária que ele realmente impressiona, com retomada bruta (1,7 s de 80 a 120 km/h!), típica de elétricos bem calibrados.
O mais interessante é como ele mascara o peso. Não há aquela sensação de inércia excessiva nas mudanças rápidas de direção, algo comum em SUVs grandes. A entrega de torque é imediata, mas previsível, sem comportamento abrupto ou arisco andando mais devagar. Mesmo em velocidades mais altas na rodovia, tudo é muito previsível e controlado.
A direção elétrica tem peso certo e respostas diretas, sem exageros artificiais. Natualmente, não é um carro que transmite cada milímetro do asfalto como um esportivo, mas no mundo dos SUVs elétricos grandes vai muito bem.
Um detalhe que eu gostei é a suspensão pneumática adaptativa, que tem quatro níveis de ajuste, sendo que mesmo ao usar o modo mais econômico de condução, você não fica obrigado a rodar com a configuração baixa, combinação que era obrigatória no Zeekr 001 e às vezes atrapalhava.
Além disso, o comportamento do carro é exemplar, firme na medida certa e sem aquela sensação de flutuação vista em alguns modelos de marcas premium com esse tipo de setup; no asfalto bom, o 7X praticamente desliza, com excelente isolamento de vibrações e ruídos, e em ritmo mais forte sustenta a carroceria com disciplina, controlando a rolagem lateral de maneira eficiente para um SUV desse porte, enquanto os freios Akebono reforçam a sensação de conjunto bem dimensionado para a potência disponível.
O conjunto de baterias tem 100 kWh de capacidade nominal, com 94 kWh utilizáveis e arquitetura de 800V. Na prática, isso se traduz em autonomia de 423 km no ciclo Inmetro. É um alcance competitivo para o segmento, especialmente considerando o belo desempenho. E o interessante é fazer tudo isso com um consumo decente para esse porte: média de 17,5 kWh/100km (5,71 km/kWh) na cidade e 18,6 kWh/100km (5,38 km/kWh) na estrada, números bem próximos, o que é comum em elétricos mais potentes. Isso daria um alcance estimado de 530 km na cidade e 505 km na estrada, números excelentes.
No carregamento em corrente alternada, uma vantagem é que ele aceita até 22 kW, o que permite recarga completa em pouco mais de cinco horas em wallbox compatível, mesmo com essa bateria grande. Em corrente contínua, o destaque: potência máxima de até 480 kW, com média de 260 kW na faixa de 10% a 80%. Em condições ideais, é possível ir de 10% a 80% em cerca de 16 minutos, uma referência entre os elétricos, mas nossa realidade de carregadores DC fica na média de 150 kW nas estradas, raramente acima de 200 kW, então não dá pra aproveitar todo o potencial desse carro.
E ainda tem função de pré-condicionamento automático da bateria via navegação e capacidade V2L de até 3,3 kW, permitindo alimentar equipamentos externos.
Por tudo o que oferece, o 7X ocupa uma posição única nessa faixa de preço. Ele custa R$ 448 mil e, para alcançar potência semelhante, normalmente seria preciso olhar para modelos que partem da casa dos R$ 700 mil. Não há muitos rivais que combinem esse porte com 646 cv. O BMW iX M60, por exemplo, entrega 619 cv e um pacote técnico excelente, mas é maior e ultrapassa com folga a barreira de R$ 1,1 milhão.
Entre os SUVs elétricos acima de 500 cv vendidos no Brasil, as opções são restritas. Versões mais potentes de BMW iX e Audi Q8 e-tron entram nesse território, mas nenhuma reúne 646 cv com preço abaixo de meio milhão de reais. Já opções como Audi Q6 e-tron e Mercedes-Benz EQE SUV se destacam por qualidade e tecnologia, porém ficam distantes em desempenho nas versões convencionais ou sobem bastante de preço quando configuradas nas variantes mais esportivas. Nesse contexto, o 7X praticamente cria uma subcategoria própria: um SUV elétrico de altíssimo desempenho ainda dentro de um patamar relativamente acessível para o público premium brasileiro.
Minha opinião honesta: é o SUV elétrico mais equilibrado que já dirigi até hoje nessa faixa de preço. Potente, eficiente, refinado e concilia desempenho e conforto de forma poucas vezes vista para um carro desse porte.
O Zeekr 7X não é apenas mais um elétrico chinês tentando ganhar espaço com números e tecnologia. Ele é um produto global, tecnicamente sofisticado, bem construído e, principalmente, coerente.
Se mantiver consistência no pós-venda e construção de marca no Brasil, tem tudo para se tornar o principal pilar da Zeekr por aqui. E mais do que isso: força o mercado a se mexer. Porque depois de dirigir um SUV de 646 cv por R$ 448 mil, fica difícil olhar para algumas etiquetas de preço sem questionar…
| Zeekr 7X AWD | |
| Motor | Dois motores elétricos síncronos (um por eixo), tração integral (AWD) |
| Potência e torque | 646 cv e 710 Nm (72,4 kgfm) |
| Bateria | Íons de lítio NMC (CATL Qilin) com 100 kWh (94 kWh utilizáveis) |
| Tipo de tomada | 22 kW (AC) Tipo 2 – até 480 kW (DC) CCS2 |
| Suspensão | Independente nas quatro rodas com suspensão pneumática adaptativa e controle eletrônico CCD e pneus 265/45 R20 |
| Comprimento e entre-eixos | 4.787 mm e 2.900 mm |
| Largura | 1.930 mm |
| Altura | 1.650 mm |
| Peso | 2.535 kg (ordem de marcha – padrão europeu) |
| Capacidades | Porta-malas: 539 litros ; Frunk: 42 litros |
| Autonomia elétrica | Inmetro (PBEV): 423 km – consumo urbano 5,71 km/kWh (17,5 kWh/100 km) |
| Aceleração | 0 a 60 km/h: 2,3 s; 0 a 80 km/h: 3,0 s; 0 a 100 km/h: 3,8 s |
| Retomada | 40 a 100 km/h (em D): 2,3 s em 44,37 m; 80 a 120 km/h (em D): 1,7 s em 46,37 m |
| Preço como testado | R$ 448.000 |