Após um ano de celebrações, a General Motors do Brasil encerra neste domingo (18/1) as comemorações de seu centenário. Interlagos foi o local escolhido para um festival promovido pelo Clube do Chevrolet, com exposição de carros antigos e um rali de regularidade voltado a modelos anteriores a 1996. O evento é exclusivo para sócios do clube, convidados e inscritos nas atrações.
Além de exibir sua linha atual e um Opala SS ainda inédito do Projeto Vintage, a fabricante aproveita o evento para lançar o livro GM do Brasil 100 anos: sempre na direção do futuro. Trata-se de um “livrão” com capa dura, formato de 29 cm × 29 cm e 324 páginas ilustradas com quase 800 imagens. A primeira edição da obra é limitada a 1.000 exemplares, com previsão de chegada ao mercado em breve, inclusive em versão digital, nos idiomas português e inglês. Ainda não foram revelados preços ou pontos de venda.
O jornalista Felipe Nóbrega, com mais de uma década de atuação no departamento de Comunicação da GM, entrevistou dezenas de fontes e mergulhou no riquíssimo — e centenário — acervo da fábrica de São Caetano do Sul, trazendo à tona muito material até hoje inédito para o grande público.
Juntamente com o pesquisador Rogério de Simone, tive a felicidade de contribuir com a pesquisa e a curadoria de conteúdo do livro, tendo acesso a materiais jamais imaginados. Foi surpreendente descobrir a quantidade de documentos preservados nesses 100 anos de história — em vez de descartados ao longo das décadas “para abrir espaço”, uma situação trivial na indústria automobilística brasileira.
A coleção inclui fotos e negativos das linhas de produção, escritórios da empresa, originais de propagandas, a ata de fundação da “General Motors of Brazil” e até a planta baixa do primeiro galpão da companhia, na Avenida Presidente Wilson, 201, em São Paulo. Há também, é claro, imagens de divulgação de carros, caminhões, ônibus e até das geladeiras Frigidaire (produzidas pela GM).
Esse vasto conjunto de documentos foi pesquisado, identificado, editado e, em boa parte, digitalizado por Felipe, e agora será aberto aos leitores. Ao longo do trabalho, o jornalista descobriu fatos surpreendentes, como a contribuição da empresa no projeto do carro de Fórmula 1 Copersucar-Fittipaldi: modelos em argila foram esculpidos no estúdio da GM do Brasil, e os testes aerodinâmicos contaram com o apoio técnico dos engenheiros da companhia.
Estruturado em capítulos temáticos — como GM global, GM do Brasil, curiosidades e legado — o livro permite múltiplas leituras e pode ser “degustado” de maneiras distintas, de acordo com o repertório e o interesse de cada leitor. A história dos veículos das diferentes marcas do grupo aparece sempre contextualizada nas transformações sociais e econômicas que moldaram o país nos últimos 100 anos.
Para a coluna de hoje, destaco bastidores pouco conhecidos do desenvolvimento de automóveis pela GM do Brasil entre os anos 1960 e 1980. São desenhos e fotos de estudos de estilo, maquetes e protótipos que avançaram em diferentes estágios de desenvolvimento, mas jamais chegaram ao mercado. Alguns eram considerados material confidencial e agora são revelados pela primeira vez.
Começamos por uma proposta de atualização para a linha 1969 das picapes Chevrolet C-14 e dos caminhões C-60, que ganhariam uma grade em sintonia com a que equipou o recém-lançado Opala. Já a camioneta C-1416 (que ainda nem se chamava Veraneio na época) quase recebeu uma grade mais enfeitada, parecida com a que entrou em linha nas picapes Chevrolet norte-americanas de 1971.
Quando o assunto é Opala, não faltam imagens de estudos de grades, lanternas e outros componentes desenvolvidos no Brasil — até mesmo uma inusitada forração listrada para os bancos, bem ao gosto dos anos 70. Pena que a foto não seja colorida.
A Caravan estreou por aqui no Salão de 1974, já com a frente do modelo 1975. Contudo, os planos para produzir a perua no Brasil eram bem mais antigos: um desenho do departamento de estilo mostra a station wagon com a grade do Opala de Luxo 1971. Além disso, a carroceria tem quatro portas, como numa das versões da alemã Opel Rekord C Caravan.
Houve vários estudos de facelift para o Opala 1973. Fizeram até uma opção com quatro faróis. No fim, optou-se pela simplicidade de usar a frente com apenas dois faróis e grade com uma barrinha central e moldura cromada, sem grandes revoluções em relação à linha 1971/1972.
A família Opala teria ainda uma picape, o projeto V80 desenvolvido no Brasil (não havia um modelo com caçamba na linha Opel Rekord C alemã). Uma foto no arquivo da GMB mostra uma picape já com a frente do Opala 1975 e acabamento esportivo, com direito a rodas pintadas de amarelo, sobrearos cromados e pneus Firestone Maxi-Sport com letras brancas. Com colunas traseiras ligeiramente inclinadas, seria uma espécie de Chevrolet El Camino nacional. A ideia não foi adiante por causa da quantidade de modificações estruturais e de suspensão exigidas.
O livro mostra ainda a proposta de um Opala hatchback, que deveria ter sido lançado em 1981. Com perfil que lembrava o do Chevrolet Citation feito nos EUA, o protótipo tinha linhas mais retas que as do Opala cupê. Já trazia maçanetas embutidas (antecipando a linha 1985), mas acabou não entrando em produção.
O Chevrolet Monza estreou no Brasil em 1982 como hatch e, em 1983, ganhou as carrocerias sedã de duas e quatro portas. A General Motors do Brasil, contudo, planejava ampliar a família Monza com uma station wagon, prevista para a linha 1985.
As fotos do arquivo mostram uma perua de duas portas com linhas muito modernas para a época. Teria colunas finas e uma ampla área envidraçada na parte traseira. Deveria ocupar o espaço entre a Marajó e a Caravan — como mostra, didaticamente, uma imagem comparando as três. O projeto não foi adiante, abrindo espaço para que a transformadora paulista Envemo fizesse sua própria perua Monza, denominada Camping. Em fins de 1989, a GM lançou no Brasil a perua Ipanema, derivada do Kadett.
O Monza recebeu seu primeiro retoque estético em maio de 1985 (o modelo ficou conhecido como Monza “85 e meio”). O livro mostra que o departamento de estilo da GM do Brasil chegou a estudar grandes modificações para dali a dois anos, resultando em um “Monza 87 e meio”. A grade era bem parecida com a do alemão Opel Kadett E (lançado em 1984), enquanto os faróis antecipavam o que se veria no “Monza Tubarão” (modelo 1991). As lanternas traseiras eram unidas por uma barra vermelha. A maior modificação, porém, estava na carroceria do sedã quatro portas: a adição de um pequeno vidro lateral, alterando o formato das colunas C. No fim, a reestilização do modelo 1988 veio bem menos “chocante”, com os costumeiros retoques em grade, faróis, lanternas e para-choques, além de melhorias no interior.
Os anos 80 foram tempos de crise econômica no Brasil, e as fabricantes precisavam esticar a vida de seus produtos com o que tinham à mão. Lançado em 1973, o Chevrolet Chevette já havia passado por duas grandes plásticas e continuava vendendo bem.
Para a linha 1989, estudou-se modernizar o modelo mais uma vez, reaproveitando sua plataforma T, com tração traseira. A nova geração do Chevette nacional teria linhas inspiradas nas do alemão Opel Kadett E Stufenheck (sedã de três volumes). Além de estilo bem mais moderno, o carro traria painel digital em sua versão SL.
O projeto brasileiro foi abandonado: afinal, a GM estava prestes a lançar no país, também em 1989, o moderno Chevrolet Kadett, com carrocerias hatch e perua — chegou-se a cogitar ainda uma picape. No fim, foi o esportivo Kadett GSi que ganhou o quadro de instrumentos digital, algo que soava futurista na época. Já o Chevette manteve-se no mercado sem maiores alterações até 1993, quando deu lugar ao Corsa.
O livro traz ainda imagens curiosas, como a de um caminhão GMC cara-chata desenvolvido nos anos 80, um crash test da Caravan e um dos estudos de estilo do primeiro Onix.
2026-01-18T14:17:58Z